Instrumento de poder: o violino, a colonialidade e o ensino musical


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30 de março de 2026

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Instrumento de poder: o violino, a colonialidade e o ensino musical

A forma como aprendemos música não é neutra. O repertório, os métodos e até o que consideramos “boa música” são influenciados por valores históricos e culturais. Essa é a ideia central discutida pela pesquisadora e violinista Luiza Gaspar Anastácio no capítulo “Instrumento de poder – violinismo e hegemonia da música de concerto em uma perspectiva decolonial”.

Baseado em sua pesquisa de doutorado, o estudo analisa como o ensino do violino ainda privilegia repertórios europeus e pode invisibilizar outras tradições musicais. A autora propõe uma reflexão sobre o papel da música de concerto na formação acadêmica e questiona hierarquias culturais que se tornaram naturalizadas.

Segundo Anastácio, a tradição violinística está associada a uma “cultura legítima” construída historicamente e que reforça valores eurocêntricos, muitas vezes tratados como universais.


Seguindo o “coelho branco”: o início da inquietação

A pesquisadora descreve sua trajetória como uma espécie de descoberta. Assim como na história de Alice, que segue o coelho branco, Anastácio percebeu algo aparentemente comum: o repertório de violino que estudava era quase sempre europeu.

Essa percepção gerou uma pergunta simples, mas poderosa: onde estavam as outras músicas? Ao investigar, ela encontrou um repertório amplo de obras brasileiras e latino-americanas pouco exploradas no ensino formal.

Essa constatação revela algo importante. Muitas vezes, a ausência de determinados repertórios não é questionada. Ela se torna parte do cotidiano e passa despercebida. A pesquisa mostra que essa invisibilização não é casual, mas resultado de processos históricos ligados à colonialidade do saber.

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  • Legenda: Partitura de violino com instrumento

O caso do “roqueiro violinista” e a conversão ao clássico

Para explicar como esses processos acontecem na prática, Anastácio apresenta exemplos reais. Um deles é o caso de um estudante que começou sua trajetória musical no rock.

O músico teve contato com violão e violino e escolheu o segundo instrumento por acaso, porque era o disponível em um conservatório próximo de sua casa. Apesar de já tocar música popular, ele afirmava “não saber nada de música” quando entrou no curso formal.

Esse detalhe é significativo. Ele revela como certos saberes — como tocar de ouvido ou improvisar — não são valorizados no ensino tradicional.

Com o tempo, o estudante passou a conhecer compositores da música de concerto europeia. Ele começou a considerar esse repertório “mais complexo” e decidiu se dedicar exclusivamente à música clássica.

Esse processo foi interpretado pela pesquisadora como uma internalização do paradigma eurocêntrico. Ou seja, o aluno passou a valorizar um modelo musical específico e a desvalorizar suas experiências anteriores.

 

Do popular ao acadêmico: outro exemplo de colonialidade

Outro caso analisado por Anastácio é o de um violinista com experiência em orquestras populares. Ele ingressou na universidade para aprimorar sua técnica e trabalhar em um projeto de orquestra típica.

No ambiente acadêmico, ele enfrentou dificuldades. Sua habilidade de improvisar e aprender de ouvido não era valorizada. Ao mesmo tempo, havia forte exigência de leitura de partituras e domínio da técnica clássica.

Esse contexto gerou um processo de adaptação. O músico começou a incorporar padrões da música de concerto para se adequar às expectativas institucionais.

A pesquisadora interpreta esse fenômeno como uma forma de “colonialidade do saber”. Esse conceito descreve a imposição de um tipo de conhecimento como universal, enquanto outros são considerados inferiores.

Segundo a autora, esse processo não acontece apenas com indivíduos, mas também com instituições de ensino, concursos e currículos.

O que é colonialidade do saber na música?

Para compreender melhor a análise, é importante entender dois conceitos centrais:

Colonialidade
É a permanência de hierarquias culturais e sociais criadas durante o colonialismo, mesmo após o fim formal da colonização.

Colonialidade do saber
Refere-se à valorização do conhecimento europeu como padrão universal, enquanto outras formas de saber são desvalorizadas.

No campo da música, isso aparece quando repertórios europeus são considerados mais “importantes” ou “complexos”, enquanto músicas populares, latino-americanas ou africanas são tratadas como secundárias.

Essa lógica influencia o ensino do violino e a formação de músicos, segundo Anastácio.

O violino como instrumento de poder cultural

O estudo mostra que o violino, historicamente associado à música de concerto, tornou-se símbolo de uma tradição específica. Essa tradição foi institucionalizada em conservatórios, universidades e orquestras.

Ao analisar documentos, programas de concerto e currículos, a pesquisa identificou a predominância de obras europeias dos séculos XVIII e XIX no repertório padrão.

Isso não significa que essas obras não sejam importantes. O problema, segundo a autora, é a exclusividade. Quando apenas um tipo de repertório é valorizado, outras tradições são invisibilizadas.

A proposta não é abandonar a música de concerto, mas ampliar o repertório e reconhecer a diversidade musical.

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Caminhos para uma perspectiva decolonial

A pesquisa sugere algumas possibilidades:

  • Inclusão de repertórios latino-americanos
  • Valorização de músicas populares
  • Ampliação de compositores estudados
  • Reconhecimento de saberes não acadêmicos
  • Revisão de currículos de ensino musical

Essas mudanças podem contribuir para uma formação musical mais diversa e inclusiva.



Conclusão

A pesquisa de Luiza Gaspar Anastácio convida a repensar o ensino do violino e, de forma mais ampla, a educação musical. Ao analisar casos reais e conceitos teóricos, o estudo mostra como padrões eurocêntricos ainda influenciam a formação de músicos.

A proposta não é rejeitar a tradição da música de concerto, mas ampliar horizontes. Reconhecer diferentes repertórios e saberes pode enriquecer a prática musical e tornar o ensino mais plural.

Essa reflexão é essencial para compreender como a música também pode ser um espaço de transformação cultural.


Sobre o pesquisador

Luiza Gaspar Anastácio é violinista e pesquisadora na área de Performance Musical. Doutora em Música pela Universidade Federal de Minas Gerais, desenvolve estudos sobre tradição violinística, colonialidade e repertório musical. Sua trajetória inclui atuação como docente e participação em projetos de música de câmara na América Latina. A pesquisa que fundamenta este texto foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Música da UFMG, com foco na formação violinística e seus contextos culturais.

Resumo do blog
Este texto apresenta, em linguagem acessível, a pesquisa da violinista e pesquisadora Luiza Gaspar Anastácio sobre a hegemonia da música de concerto no ensino do violino. A partir de exemplos reais, o estudo discute como padrões eurocêntricos influenciam a formação musical e propõe caminhos para ampliar repertórios e perspectivas. O conteúdo se baseia no capítulo “Instrumento de poder – violinismo e hegemonia da música de concerto em uma perspectiva decolonial”.

Fonte da pesquisa

Pesquisador: Luiza Gaspar Anastácio
Área de pesquisa: Performance Musical / Educação Musical
Nível da pesquisa: Doutorado
Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Artigo/Capítulo: Instrumento de poder – violinismo e hegemonia da música de concerto em uma perspectiva decolonial
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Como o ensino do violino reproduz padrões eurocêntricos? Entenda a pesquisa de Luiza Gaspar Anastácio sobre colonialidade e música de concerto.