Como desenvolver consciência artística na música?


Double-click this headline to edit the text.

30 de março de 2026

Quer divulgar
o seu trabalho?

Mande um e-mail e saiba mais como participar.

Como desenvolver consciência artística na música?

Como um músico desenvolve sua identidade artística? Este texto explica, em linguagem simples, as ideias de Mário de Andrade discutidas por Luigi Brandão e Flavio Barbeitas. A partir de três elementos — artesanato, virtuosidade e técnica individual — mostramos como a consciência artística se constrói. Uma leitura acessível para quem quer pensar a música além da técnica.

Muitos músicos já se fizeram a pergunta: o que transforma alguém em artista de verdade? Será que basta dominar o instrumento? Ou existe algo além da técnica?

Essas questões são discutidas no artigo “O intérprete musical e a técnica de arte: reflexões sobre uma proposição de Mário de Andrade”, de Luigi Brandão e Flavio Barbeitas. O texto parte das ideias do escritor e pensador Mário de Andrade para refletir sobre o papel do intérprete musical e sobre como se constrói uma consciência artística.

De forma geral, os autores explicam que o desenvolvimento artístico não depende apenas da prática técnica. Ele envolve três dimensões principais: o artesanato, a virtuosidade e a técnica individual. Juntas, elas ajudam o músico a transformar som em expressão pessoal.

A técnica de arte: três caminhos para o desenvolvimento artístico

Mário de Andrade propôs que a formação de um artista envolve três componentes. Luigi Brandão retoma essa ideia e a aplica ao intérprete musical.

Esses três elementos são:

  • O artesanato
  • A virtuosidade
  • A técnica individual

Cada um representa uma etapa importante da formação artística. Eles não acontecem separadamente, mas se complementam ao longo do percurso do músico.

O artesanato: dominar o instrumento

O primeiro ponto é o artesanato. Em termos simples, ele corresponde ao domínio técnico do instrumento.

Aqui entram aspectos como postura, precisão, controle sonoro, leitura musical e estudo sistemático. É a parte que pode ser ensinada e treinada diretamente.

Segundo a pesquisa, o alto nível técnico não surge por acaso. Ele depende de condições específicas, como tempo de estudo, orientação adequada e prática constante. Estudos citados pelos autores indicam que alcançar grande domínio instrumental pode exigir cerca de quinze anos de dedicação.

Isso mostra que a graduação universitária, sozinha, não forma completamente um músico tecnicamente maduro. O processo é mais longo e começa antes da universidade, continuando depois dela.

Outro ponto importante é que não basta estudar muitas horas. A organização do estudo também conta. O treino precisa envolver musicalidade, fraseado e intenção expressiva, e não apenas repetição mecânica.

Além disso, práticas informais — como tocar com amigos, improvisar ou experimentar repertórios diferentes — também contribuem para o desenvolvimento artístico. Essas experiências ajudam a construir personalidade musical.

A virtuosidade: aprender com o passado sem ficar preso a ele

O segundo elemento é a virtuosidade. Aqui, o foco não é apenas tocar rápido ou impressionar tecnicamente. Trata-se de conhecer estilos, tradições e formas de interpretação.

Aprender com músicos do passado é fundamental. Isso amplia o repertório de possibilidades interpretativas e ajuda o intérprete a entender diferentes maneiras de tocar uma mesma obra.

No entanto, Mário de Andrade alerta para dois riscos:

  • Ficar preso ao passado, reproduzindo modelos antigos sem reflexão
  • Buscar apenas agradar o público com exibicionismo técnico

Para evitar isso, o músico precisa desenvolver senso crítico. O objetivo não é copiar interpretações históricas, mas dialogar com elas.

Uma ideia interessante apresentada na pesquisa é comparar estilos musicais com línguas. Quando aprendemos uma nova língua, passamos a perceber melhor as características da nossa. Da mesma forma, conhecer diferentes estilos ajuda o músico a perceber que sua própria interpretação não é neutra — ela também é construída.

Esse processo abre espaço para inovação. O intérprete pode combinar influências e criar novas possibilidades expressivas.

A técnica individual: construir a própria identidade

O terceiro elemento é a técnica individual. Esse é o momento em que o músico desenvolve sua própria voz artística.

Segundo os autores, essa dimensão não pode ser ensinada diretamente. Ela nasce da experiência pessoal, da reflexão e da experimentação.

Desde o Renascimento, a arte passou a valorizar mais a individualidade. Isso significa que o artista não busca apenas reproduzir padrões, mas criar sua própria maneira de expressar ideias.

No caso do intérprete musical, isso envolve decisões como:

  • Escolhas de dinâmica
  • Uso do tempo musical
  • Articulação e fraseado
  • Concepção estética da obra

Mesmo assim, a liberdade não é total. O som possui limites físicos e estilísticos. A técnica individual surge justamente da relação entre o músico e o material sonoro.

A pesquisa destaca também que, hoje, existe certa tendência à padronização das interpretações. Muitos músicos seguem modelos considerados “corretos”, o que pode reduzir a diversidade artística.

Desenvolver uma técnica individual significa questionar esses padrões e buscar caminhos próprios, sem perder o diálogo com a tradição.

Evangeliáriode Ebo de Reims, c. 816-35(Bibliothèque Municipale, Épernay)
Evangeliáriode Ebo de Reims, c. 816-35(Bibliothèque Municipale, Épernay)

Consciência artística: o que é e como se desenvolve

Os autores afirmam que o artista enfrenta desafios que só podem ser superados com a chamada consciência artística.

Essa consciência não surge espontaneamente. Ela é construída por meio de estudo, reflexão e contato com ideias sobre arte.

O estudo da estética — ou seja, da filosofia da arte — ajuda o músico a pensar sobre suas escolhas e sobre o significado da interpretação musical. Isso amplia a intuição e orienta decisões artísticas.

Além disso, o desenvolvimento dessa consciência envolve:

  • Questionar tradições interpretativas
  • Experimentar novas soluções
  • Refletir sobre o próprio processo criativo
  • Dialogar com outros artistas

Esse percurso é pessoal e contínuo. Não existe uma fórmula única.

O papel da universidade na formação do intérprete

Embora a técnica individual não possa ser ensinada diretamente, os autores destacam que o ambiente universitário pode favorecer esse desenvolvimento.

A universidade oferece:

  • Contato com diferentes ideias
  • Discussões teóricas
  • Diversidade de repertórios
  • Espaços de experimentação

Esse contexto estimula o pensamento crítico e a autonomia artística. O estudante passa a refletir sobre a música de forma mais ampla, indo além da execução técnica.

Assim, a universidade funciona como um ambiente propício para o amadurecimento da consciência artística.

Muito além da técnica

Uma das conclusões mais importantes da pesquisa é que a qualidade artística não depende apenas da perfeição técnica.

Uma interpretação pode ter pequenas falhas técnicas e ainda assim ser expressiva e significativa. Isso acontece porque a arte envolve emoção, intenção e comunicação.

Ou seja, tocar bem não é apenas tocar corretamente. É criar sentido, identidade e diálogo com o público.

Conclusão

Desenvolver consciência artística é um processo longo e pessoal. Não basta dominar o instrumento. É preciso conhecer tradições, refletir sobre a arte e construir uma identidade própria.

As ideias discutidas por Luigi Brandão e Flavio Barbeitas, a partir de Mário de Andrade, mostram que o músico se forma por meio de três dimensões: artesanato, virtuosidade e técnica individual.

Quando esses elementos se combinam, o intérprete deixa de apenas executar notas e passa a construir uma expressão artística única.

A música, nesse sentido, não é apenas prática. É também pensamento, reflexão e criação. 🎶


Fonte da pesquisa

Pesquisador: Luigi Brandão e Flavio Barbeitas
Artigo: O intérprete musical e a técnica de arte: reflexões sobre uma proposição de Mário de Andrade
Link do texto completo: https://periodicos.unespar.edu.br/vortex/article/view/9425/7087