A pesquisa de mestrado de Ana Maria Janunzzi de Salles, intitulada “Meu tempo é hoje”: o processo de ensino-aprendizado do piano e as múltiplas velhices, foi realizada entre os anos de 2021 e 2023, na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), sob orientação da professora doutora Carla Silva reis.
O objetivo da investigação foi levantar dados sobre como os alunos idosos (60+) aprendem piano.
De início, um Estado da Arte realizado em 2021 apontou a escassez de trabalhos direcionados a essa temática em âmbito nacional.
Para este levantamento, foram analisados os trabalhos publicados nos Anais dos eventos nacionais da Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM) e da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANNPOM).
Analisamos também publicações dos periódicos das mesmas associações.
Devido à falta de material científico brasileiro sobre o ensino de piano para pessoas idosas, foram estudadas a partir de outras áreas do conhecimento, como a gerontologia, características do envelhecimento em seus aspectos físico, biológico, psicológico e social.
Em seguida, para a observação dessas especificidades do envelhecimento, as pesquisadoras criaram o projeto de extensão universitária Meu tempo é hoje: o piano na terceira idade (PROEX/UFSJ).
Atualmente o projeto passou a ser um programa da universidade e teve seu nome alterado para Meu tempo é hoje: o piano 60+:

Logo do programa, atualizada em 2024.
Durante a etapa de coleta de dados da pesquisa, no ano de 2022, foram oferecidas aulas individuais de piano que aconteceram no Centro de Referência Musicológica José Maria Neves (CEREM), localizado no centro da cidade de São João del-Rei.
Algumas aulas foram realizadas em grupo no Centro Cultural da UFSJ, também conhecido como Solar da Baronesa.
Obtivemos 14 inscrições iniciais, mas participaram até o final da pesquisa apenas 7 pessoas.

Um dos recitais realizados no projeto, no ano de 2022.
Da observação e coleta de dados durante as aulas oferecidas no projeto, emergiram 6 categorias de análise: as múltiplas velhices; as motivações dos participantes; princípios físico-motores da técnica pianística; o aprendizado do piano e a ansiedade; aspectos cognitivos do ensino-aprendizado; materiais e adaptações. A seguir, detalharemos cada uma delas.
Múltiplas velhices
Esta categoria relaciona-se diretamente com os participantes dessa pesquisa, trata-se de um breve perfil traçado com informações de suas vidas pessoais.
Em outro contexto, esses perfis seriam completamente diferentes.
Por esse motivo, não detalharemos aqui essas informações.
O objetivo da criação dessa categoria foi demonstrar que existem várias formas de envelhecer, mas que mesmo assim, algumas características relacionadas ao processo de envelhecimento são visíveis em todos nós.

Aula coletiva no Centro Cultural da UFSJ, no ano de 2023.
As motivações dos participantes
Aqui também existe uma relação direta com os participantes, a procura pelas aulas de piano possui várias motivações, porém a maioria dos alunos possui uma motivação em comum: desde sempre gostavam de piano, mas não tiveram oportunidade de ter contato, devido aos acontecimentos da vida.
Agora que estão aposentados, resolveram dar uma chance a esse desejo antigo.
Essa motivação é encontrada empiricamente em outros contextos, por isso, torna-se um dado importante sobre o ensino de piano para pessoas idosas.
Além dessa, também encontramos pessoas que desejavam retornar o estudo interrompido no passado, a utilização da música como motivação para outros aspectos da vida, a utilização do aprendizado do instrumento como estímulo cognitivo e tentativa de barrar doenças como Alzheimer, e o desejo de conhecer a música e suas técnicas em maior profundidade.
É muito importante para o professor conhecer as motivações dos alunos idosos, pois elas servirão como um guia de planejamento das aulas, visto que essas pessoas não buscam a profissionalização, mas sim uma atividade prazerosa.

Alguns alunos na aula inicial, em 2022.
Princípios físico-motores da técnica pianística
Nessa categoria, apresentamos os dados que estão relacionados diretamente com aspectos físicos do envelhecimento e o aprendizado do piano.
Observamos que existe uma rigidez articular que é fruto do processo de envelhecimento, e que de certa forma traz algumas dificuldades para o professor que está acostumado a trabalhar com alunos mais jovens.
Problemas como segurar as teclas involuntariamente durante uma melodia; ou um excesso de força para abaixar as teclas, causando uma tensão grande e consequentemente um volume muito alto de som no instrumento; a falta de agilidade, ou seja velocidade, também está relacionada com a rigidez articular do envelhecimento.
São questões técnicas que podem não se resolver com rapidez, cabe ao professor o exercício da paciência e a criatividade, pois nem sempre os exercícios contidos nos livros didáticos serão eficientes para o aluno idoso.
O aprendizado do piano e a ansiedade
A ansiedade foi um fator presente nas aulas de todos os participantes da pesquisa. Na velhice, ela se relaciona com as limitações vivenciadas nessa fase, que são interpretadas como ameaçadoras. Essas percepções negativas interferem diretamente na atenção seletiva, na memória e podem bloquear a compreensão e o raciocínio.
Alguns participantes comentavam diretamente, “sou muito ansioso, fico querendo acertar todas as notas”, outros não comentavam nada, mas algumas atitudes eram perceptíveis, como por exemplo perguntar a todo momento se estavam tocando a nota correta mesmo tendo certeza do que deveria tocar.
É importante a compreensão da ansiedade como um fator presente em sala de aula para que o professor não caia na perspectiva do senso comum, colocando todos os desafios na direção de problemas físico-motores do envelhecimento.
Um exemplo interessante diz respeito à postura do aluno. Segundo Rafael Ponce e Emerson de Biaggi (2019), um sintoma comportamental da ansiedade na performance é a dificuldade em manter a postura.
Em se tratando de idosos, como citado anteriormente, existe um enrijecimento natural da musculatura, porém nem sempre essa dificuldade vem da parte físico-motora. Cabe ao professor avaliar essa situação para poder ajudá-lo da forma mais apropriada.
Aspectos cognitivos do ensino-aprendizado
Quando adultos, nós já somos capazes de pensar abstratamente, e podemos raciocinar com hipóteses, sem a presença de objetos visíveis, o que facilita o ensino de conteúdos musicais teóricos como, por exemplo, a proporção matemática das figuras.
Para adquirirmos um novo conhecimento, é necessária a ativação de alguns processos cognitivos, como a percepção, a atenção e a memorização.
Com o decorrer do envelhecimento humano, existe uma declinação dessas capacidades, fazendo com que as pessoas levem mais tempo para assimilar um novo conhecimento ou habilidade.
É importante que o professor tome conhecimento dessa mudança cognitiva, pois uma atividade que consideramos relativamente “simples” pode levar mais tempo para ser realizada e assimilada por um aluno idoso. O tempo é um conceito chave, não se deve ter pressa ao lidar com a velhice!
Materiais e adaptações
Apesar da escolha de um material didático com uma abordagem mais moderna, a proposta de ensino por imitação apresentou muitas dificuldades.
Primeiramente, os alunos sempre perguntavam “onde estava escrito” o que eles estavam tocando, houve uma necessidade de racionalização a todo momento, mesmo em atividades mais livres com improvisação.
Segundo, como dito anteriormente, a memória é uma capacidade afetada com o processo de envelhecimento, e o ensino por imitação depende quase que exclusivamente da memorização das músicas.
Para resolver esse problema, optamos por criar gráficos que ajudassem visualmente na lembrança das músicas.

Parte B da música I love Coffee.
Outra adaptação necessária foi o ajuste de tamanho das partituras e materiais, pois houve queixa por parte de todos os participantes.
Ao final do ano de 2022, realizamos um recital final com os participantes do projeto.
O pequeno público foi composto pelas famílias dos nossos pianistas, e nesse meio uma ouvinte muito especial, ex-aluna do nosso projeto, e por coincidência a de idade mais avançada.
O repertório foi formado por músicas executadas pelos alunos intercaladas com músicas apresentadas pelos professores do projeto, e tivemos também um convidado para um duo de violão e piano.
Criamos um programa com a sequência das músicas para melhor organizar os alunos.
Em meio a alguns tremores e um pouco de tensão, os alunos conseguiram realizar um sarau encantador, que rendeu muitos aplausos e lágrimas de felicidade.
Não consideramos um recital, apresentação, ou sarau como um resultado final de algo.
Para nós, o palco serve como parte de um processo em que tudo se faz canção.
E assim avistamos que lá se vai mais um dia em que a música toca uma terra que, embora passados alguns bons anos, ainda continua fértil para florescer.

Momentos marcantes do projeto “Meu tempo é hoje”.
A autora, Ana Maria, encontra-se agora como doutoranda na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), onde continua desenvolvendo a pesquisa sobre o ensino de piano para pessoas idosas.
O caminho atual é o desenvolvimento de uma sistematização de conhecimentos didático-pedagógicos destinados à sala de aula, contribuindo mais diretamente com a práxis dos professores de piano que atuam com alunos idosos.

