Resumo do blog:
Este artigo apresenta, em linguagem acessível, reflexões sobre diversidade vocal no ensino musical baseadas nas pesquisas da cantora e pesquisadora Lívia Oliveira Itaborahy. O texto discute a predominância do canto erudito nas universidades, a exclusão de outras tradições e a relação entre voz, território e identidade. Também aponta caminhos para um ensino mais inclusivo e conectado com a realidade latino-americana.
Por que apenas um jeito de cantar costuma dominar as universidades? Por que tantas tradições vocais ficam de fora do ensino formal? Essas perguntas estão no centro das pesquisas da cantora e pesquisadora Lívia Oliveira Itaborahy.
As reflexões apresentadas neste texto se baseiam principalmente no artigo Canto popular e decolonialidade: voz, território e pertencimento no ensino universitário latinoamericano, além de outros trabalhos da autora, como Canto-território e as escutas que cedem. Nessas pesquisas, a autora discute como o ensino de canto nas universidades latino-americanas ainda reproduz padrões eurocêntricos (centrados na Europa) e deixa de lado outras formas de expressão vocal.
A proposta é simples, mas profunda: reconhecer que existem muitas maneiras válidas de cantar e que cada voz carrega cultura, território e identidade.
A predominância do canto erudito nas universidades
Nas faculdades de música, o canto erudito costuma ser tratado como padrão principal. Isso significa que técnicas, repertórios e critérios de avaliação são baseados nesse modelo. Ao longo do tempo, esse padrão passou a ser visto como referência universal.
Segundo Itaborahy, essa supervalorização gera um problema estrutural. Outras formas de cantar, como o canto popular latino-americano, acabam sendo consideradas menos técnicas ou menos “corretas”. O resultado é a invisibilização de tradições vocais riquíssimas.
Esse processo pode ser entendido como uma forma de colonialidade (manutenção de hierarquias culturais herdadas do período colonial). Na prática, significa que certos saberes são considerados superiores, enquanto outros são desvalorizados.
A autora observa que esse modelo se perpetua dentro das instituições. Professores formados nesse padrão ensinam seus alunos, que depois se tornam professores e continuam reproduzindo o mesmo sistema. Esse ciclo cria o que ela chama de “monocultura vocal”, ou seja, um ensino baseado em apenas um tipo de voz.
Quando a experiência pessoal revela um problema maior
A própria trajetória de Lívia Itaborahy ajuda a ilustrar essa questão. Em um episódio relatado na pesquisa, ela ouviu na primeira aula de canto em um conservatório: “Sua voz não serve para o canto erudito, estamos perdendo tempo”.
Na época, ela já tinha experiência com música brasileira e havia participado de festivais. Mesmo assim, sua vivência não foi considerada. A exigência era adaptar-se totalmente ao modelo erudito.
Essa experiência levou a autora a questionar o sistema. Como uma voz com trajetória musical poderia ser considerada inadequada? A partir dessa inquietação, ela iniciou uma investigação sobre colonialidade no ensino musical.
Esse tipo de situação mostra como o ensino pode desconsiderar identidades vocais diversas. Em vez de trabalhar a partir da experiência do estudante, o modelo tradicional busca padronizar todas as vozes.
A voz como território, corpo e identidade
Um dos conceitos centrais da pesquisa é a ideia de materialidade da voz. Isso significa que a voz não é apenas técnica. Ela nasce de um corpo situado em um território e em uma cultura.
Cada pessoa canta a partir de suas vivências. Isso inclui:
- história pessoal
- cultura local
- identidade coletiva
- experiências comunitárias
- relação com o território
A autora destaca que “a voz incorpora experiências relacionadas à vida, às águas, à terra, ao fogo, ao ar e à existência humana”. Essa afirmação reforça a ideia de que cantar é também expressar pertencimento.
Quando o ensino ignora esses elementos, ele reduz a voz a um conjunto de exercícios técnicos. Com isso, perde-se uma dimensão importante da expressão musical.
Decolonialidade no ensino do canto
A proposta decolonial apresentada por Itaborahy não significa abandonar a técnica. Significa ampliar o entendimento do que é técnica e reconhecer diferentes tradições.
A decolonialidade (perspectiva que questiona hierarquias culturais impostas) busca repensar o que é considerado conhecimento válido. No caso do canto, isso envolve valorizar práticas vocais latino-americanas, indígenas e afrodescendentes.
Essa abordagem também propõe mudanças pedagógicas. Em vez de um modelo mestre-discípulo rígido, a autora sugere conhecimento co-construído (aprendizado compartilhado entre professor e aluno).
Além disso, o ensino pode incluir experiências multimodais. Isso significa trabalhar não apenas a voz, mas também corpo, movimento, percepção e relação com o ambiente.
Diversidade vocal como patrimônio cultural
Um ponto importante destacado na pesquisa é que o canto existe em todas as culturas. O fato de o canto erudito ter sido sistematizado na Europa não significa que ele seja a origem de todas as formas de cantar.
A autora afirma que diferentes povos desenvolveram suas próprias vocalidades. Essas práticas refletem modos de vida, histórias e identidades.
Reconhecer essa diversidade significa entender a voz como patrimônio cultural. Isso amplia o ensino musical e permite que mais estudantes se identifiquem com o processo de aprendizagem.
Vocalidade como forma de resistência
Outro conceito importante é o de vocalidade (voz em performance). Segundo Itaborahy, a vocalidade pode ser uma expressão íntima e política.
Ao cantar, o indivíduo não produz apenas sons. Ele também expressa sua história e sua relação com a comunidade. Dessa forma, a voz pode atuar como forma de resistência cultural.
Isso é especialmente relevante na América Latina, onde muitas tradições foram marginalizadas ao longo do tempo. Valorizar essas vocalidades significa reconhecer identidades historicamente silenciadas.
Caminhos para transformar o ensino de canto
A pesquisa apresenta algumas possibilidades para tornar o ensino mais inclusivo:
Valorização da diversidade cultural
Incluir repertórios latino-americanos e diferentes tradições vocais.
Democratização da técnica
Reconhecer múltiplas formas de desenvolvimento vocal.
Conhecimento compartilhado
Promover troca de experiências entre professores e alunos.
Integração corpo e voz
Trabalhar movimento, percepção e expressão.
Conexão com território
Entender a voz como expressão de pertencimento cultural.
Essas mudanças não eliminam o canto erudito. Elas apenas ampliam o espaço para outras formas de cantar.
Conclusão
Repensar o ensino de canto significa reconhecer que não existe apenas uma forma correta de usar a voz. Cada tradição vocal traz conhecimentos próprios e importantes.
As pesquisas de Lívia Oliveira Itaborahy mostram que a diversidade vocal latino-americana ainda é pouco explorada nas universidades. Ao valorizar território, identidade e cultura, o ensino musical pode se tornar mais inclusivo e representativo.
Abrir espaço para diferentes vocalidades não é apenas uma mudança pedagógica. É também uma forma de reconhecer a riqueza cultural presente nas vozes da América Latina. 🎶
Fonte da pesquisa
Pesquisadora: Lívia Oliveira Itaborahy
Nível da pesquisa: Mestrado e Doutorado (reflexões derivadas de ambas as investigações)
Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Artigo principal: Canto popular e decolonialidade: voz, território e pertencimento no ensino universitário latinoamericano
Link: https://anppom.org.br/anais/anaiscongresso_anppom_2024/papers/2750/public/2750-10842-1-PB.pdf
Canto-território e as escutas que cedem Lívia Oliveira Itaborahy
https://revistas.usp.br/revistamusica/pt_BR/article/view/242680/221671
Metadescrição (SEO):
Entenda como a diversidade vocal latino-americana desafia o ensino tradicional de canto e propõe uma abordagem decolonial mais inclusiva nas universidades.

