Como desenvolver consciência artística na música?
Como um músico desenvolve sua identidade artística? Este texto explica, em linguagem simples, as ideias de Mário de Andrade discutidas por Luigi Brandão e Flavio Barbeitas. A partir de três elementos — artesanato, virtuosidade e técnica individual — mostramos como a consciência artística se constrói. Uma leitura acessível para quem quer pensar a música além da técnica.
Muitos músicos já se fizeram a pergunta: o que transforma alguém em artista de verdade? Será que basta dominar o instrumento? Ou existe algo além da técnica?
Essas questões são discutidas no artigo “O intérprete musical e a técnica de arte: reflexões sobre uma proposição de Mário de Andrade”, de Luigi Brandão e Flavio Barbeitas. O texto parte das ideias do escritor e pensador Mário de Andrade para refletir sobre o papel do intérprete musical e sobre como se constrói uma consciência artística.
De forma geral, os autores explicam que o desenvolvimento artístico não depende apenas da prática técnica. Ele envolve três dimensões principais: o artesanato, a virtuosidade e a técnica individual. Juntas, elas ajudam o músico a transformar som em expressão pessoal.
A técnica de arte: três caminhos para o desenvolvimento artístico
Mário de Andrade propôs que a formação de um artista envolve três componentes. Luigi Brandão retoma essa ideia e a aplica ao intérprete musical.
Esses três elementos são:
- O artesanato
- A virtuosidade
- A técnica individual
Cada um representa uma etapa importante da formação artística. Eles não acontecem separadamente, mas se complementam ao longo do percurso do músico.
O artesanato: dominar o instrumento
O primeiro ponto é o artesanato. Em termos simples, ele corresponde ao domínio técnico do instrumento.
Aqui entram aspectos como postura, precisão, controle sonoro, leitura musical e estudo sistemático. É a parte que pode ser ensinada e treinada diretamente.
Segundo a pesquisa, o alto nível técnico não surge por acaso. Ele depende de condições específicas, como tempo de estudo, orientação adequada e prática constante. Estudos citados pelos autores indicam que alcançar grande domínio instrumental pode exigir cerca de quinze anos de dedicação.
Isso mostra que a graduação universitária, sozinha, não forma completamente um músico tecnicamente maduro. O processo é mais longo e começa antes da universidade, continuando depois dela.
Outro ponto importante é que não basta estudar muitas horas. A organização do estudo também conta. O treino precisa envolver musicalidade, fraseado e intenção expressiva, e não apenas repetição mecânica.
Além disso, práticas informais — como tocar com amigos, improvisar ou experimentar repertórios diferentes — também contribuem para o desenvolvimento artístico. Essas experiências ajudam a construir personalidade musical.
A virtuosidade: aprender com o passado sem ficar preso a ele
O segundo elemento é a virtuosidade. Aqui, o foco não é apenas tocar rápido ou impressionar tecnicamente. Trata-se de conhecer estilos, tradições e formas de interpretação.
Aprender com músicos do passado é fundamental. Isso amplia o repertório de possibilidades interpretativas e ajuda o intérprete a entender diferentes maneiras de tocar uma mesma obra.
No entanto, Mário de Andrade alerta para dois riscos:
- Ficar preso ao passado, reproduzindo modelos antigos sem reflexão
- Buscar apenas agradar o público com exibicionismo técnico
Para evitar isso, o músico precisa desenvolver senso crítico. O objetivo não é copiar interpretações históricas, mas dialogar com elas.
Uma ideia interessante apresentada na pesquisa é comparar estilos musicais com línguas. Quando aprendemos uma nova língua, passamos a perceber melhor as características da nossa. Da mesma forma, conhecer diferentes estilos ajuda o músico a perceber que sua própria interpretação não é neutra — ela também é construída.
Esse processo abre espaço para inovação. O intérprete pode combinar influências e criar novas possibilidades expressivas.
A técnica individual: construir a própria identidade
O terceiro elemento é a técnica individual. Esse é o momento em que o músico desenvolve sua própria voz artística.
Segundo os autores, essa dimensão não pode ser ensinada diretamente. Ela nasce da experiência pessoal, da reflexão e da experimentação.
Desde o Renascimento, a arte passou a valorizar mais a individualidade. Isso significa que o artista não busca apenas reproduzir padrões, mas criar sua própria maneira de expressar ideias.
No caso do intérprete musical, isso envolve decisões como:
- Escolhas de dinâmica
- Uso do tempo musical
- Articulação e fraseado
- Concepção estética da obra
Mesmo assim, a liberdade não é total. O som possui limites físicos e estilísticos. A técnica individual surge justamente da relação entre o músico e o material sonoro.
A pesquisa destaca também que, hoje, existe certa tendência à padronização das interpretações. Muitos músicos seguem modelos considerados “corretos”, o que pode reduzir a diversidade artística.
Desenvolver uma técnica individual significa questionar esses padrões e buscar caminhos próprios, sem perder o diálogo com a tradição.

Consciência artística: o que é e como se desenvolve
Os autores afirmam que o artista enfrenta desafios que só podem ser superados com a chamada consciência artística.
Essa consciência não surge espontaneamente. Ela é construída por meio de estudo, reflexão e contato com ideias sobre arte.
O estudo da estética — ou seja, da filosofia da arte — ajuda o músico a pensar sobre suas escolhas e sobre o significado da interpretação musical. Isso amplia a intuição e orienta decisões artísticas.
Além disso, o desenvolvimento dessa consciência envolve:
- Questionar tradições interpretativas
- Experimentar novas soluções
- Refletir sobre o próprio processo criativo
- Dialogar com outros artistas
Esse percurso é pessoal e contínuo. Não existe uma fórmula única.
O papel da universidade na formação do intérprete
Embora a técnica individual não possa ser ensinada diretamente, os autores destacam que o ambiente universitário pode favorecer esse desenvolvimento.
A universidade oferece:
- Contato com diferentes ideias
- Discussões teóricas
- Diversidade de repertórios
- Espaços de experimentação
Esse contexto estimula o pensamento crítico e a autonomia artística. O estudante passa a refletir sobre a música de forma mais ampla, indo além da execução técnica.
Assim, a universidade funciona como um ambiente propício para o amadurecimento da consciência artística.
Muito além da técnica
Uma das conclusões mais importantes da pesquisa é que a qualidade artística não depende apenas da perfeição técnica.
Uma interpretação pode ter pequenas falhas técnicas e ainda assim ser expressiva e significativa. Isso acontece porque a arte envolve emoção, intenção e comunicação.
Ou seja, tocar bem não é apenas tocar corretamente. É criar sentido, identidade e diálogo com o público.
Conclusão
Desenvolver consciência artística é um processo longo e pessoal. Não basta dominar o instrumento. É preciso conhecer tradições, refletir sobre a arte e construir uma identidade própria.
As ideias discutidas por Luigi Brandão e Flavio Barbeitas, a partir de Mário de Andrade, mostram que o músico se forma por meio de três dimensões: artesanato, virtuosidade e técnica individual.
Quando esses elementos se combinam, o intérprete deixa de apenas executar notas e passa a construir uma expressão artística única.
A música, nesse sentido, não é apenas prática. É também pensamento, reflexão e criação. 🎶
Fonte da pesquisa
Pesquisador: Luigi Brandão e Flavio Barbeitas
Artigo: O intérprete musical e a técnica de arte: reflexões sobre uma proposição de Mário de Andrade
Link do texto completo: https://periodicos.unespar.edu.br/vortex/article/view/9425/7087

