A Coleção José Pascoal Guimarães e a memória do violão brasileiro 


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30 de março de 2026

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Resumo do blog
A Coleção José Pascoal Guimarães, considerada a segunda maior coleção de violão do Brasil, revela práticas musicais, compositores autodidatas e memórias culturais do século XX. A pesquisa de Roger Deboben Schena e Fernando Araújo mostra como esse acervo preserva saberes informais e fortalece a resistência cultural. O material, hoje na UFMG, ajuda a compreender o papel do violão na história musical brasileira.

A história da música brasileira não está apenas nos grandes palcos ou nos nomes mais conhecidos. Muitas vezes, ela vive em cadernos manuscritos, gravações caseiras e partituras compartilhadas entre amigos. É justamente esse universo que a Coleção José Pascoal Guimarães revela.

Considerada a segunda maior coleção de itens relacionados ao violão no Brasil, essa coleção foi doada à Universidade Federal de Minas Gerais em 2021. Em 2023, os pesquisadores Roger Deboben Schena e Fernando Araújo catalogaram o material, destacando a importância histórica e cultural do acervo.

A pesquisa, intitulada “Coleção José Pascoal Guimarães: Resgate de obras e compositores”, mostra como esse conjunto de documentos preserva repertórios, valoriza práticas musicais e ajuda a reconstruir a memória do violão no Brasil.

Um acervo que guarda histórias esquecidas

A coleção reúne manuscritos, partituras, discos, gravações e correspondências. Esses materiais ajudam a compreender práticas musicais da segunda metade do século XX.

Entre essas práticas está a chamada música seresteira — um estilo marcado pelo canto acompanhado por violão e outros instrumentos. Segundo MACHADO (2004), citado na pesquisa, esse repertório inclui ritmos como choro, samba-canção, bolero e valsa.

Além disso, a pesquisa identificou muitas gravações caseiras. Grande parte dos manuscritos presentes na coleção surgiu justamente da transcrição dessas gravações. Ou seja, músicas que existiam apenas “de ouvido” passaram a ser registradas em partitura.

Esse tipo de documentação é importante porque preserva formas de aprendizado informal, comuns na época. Muitos músicos não tinham acesso à formação acadêmica, mas produziam e compartilhavam conhecimento musical.


A coleção como lugar de memória

Os pesquisadores relacionam a coleção ao conceito de “lugar de memória”, proposto pelo historiador francês Pierre Nora. Segundo ele, esses lugares existem para “parar o tempo e bloquear o trabalho do esquecimento”.

Aplicando essa ideia ao acervo, a Coleção José Pascoal funciona como um espaço que preserva práticas musicais, modos de aprendizado e repertórios que poderiam desaparecer.

Nesse sentido, a coleção não é apenas um conjunto de documentos. Ela representa uma forma de resistência cultural. Ao registrar saberes informais, ela garante que esses conhecimentos cheguem às novas gerações de músicos.


Arquivo musical simbolizando preservação da memória

Compositores empíricos e o aprendizado “de ouvido”

Um dos pontos mais interessantes da pesquisa é a presença de músicos pouco conhecidos. Os autores os chamam de “compositores empíricos” — termo usado para descrever músicos autodidatas que aprenderam sem formação institucional.

Esse tipo de aprendizado era comum nos séculos XIX e XX. Muitos músicos aprendiam observando outros instrumentistas ou tocando “de ouvido”. Esse saber informal foi fundamental para a construção da cultura musical brasileira.

A coleção inclui registros de compositores como José Augusto Vieira e João Pinheiro. Apesar de pouco documentados historicamente, suas músicas foram preservadas graças às gravações e transcrições realizadas por José Pascoal.

Essa documentação permite reconstruir parte do cenário musical de Belo Horizonte na segunda metade do século XX, revelando redes de colaboração entre músicos.


Quem foi José Pascoal Guimarães

José Pascoal Guimarães nasceu em Braúnas, Minas Gerais, e foi um violonista autodidata. Desde cedo demonstrou interesse pela música, iniciando seus estudos com aulas de teoria e solfejo ministradas por sua irmã.

Mesmo seguindo outras profissões — estudou medicina e trabalhou como bancário — nunca abandonou o violão. Na década de 1950, já em Belo Horizonte, começou a construir sua coleção.

O primeiro item adquirido foi um manual da Escola de Tárrega, utilizado para aprender violão de forma autodidata. A partir daí, o acervo cresceu com partituras, discos e instrumentos.

Com o tempo, sua casa tornou-se um ponto de encontro para músicos. Muitos violonistas frequentavam o espaço para estudar e trocar repertórios. Esse ambiente colaborativo contribuiu para a formação de vários instrumentistas.

Além de colecionar materiais, José Pascoal também transcreveu obras a partir de gravações realizadas em sua própria casa. Ele ainda disponibilizava cópias gratuitamente, ampliando o acesso ao repertório.


[Imagem sugerida]
Link: https://images.unsplash.com/photo-1525201548942-d8732f6617a0
Legenda: Encontro musical informal representando troca de saberes
Posicionamento: Após seção “Quem foi José Pascoal Guimarães”


A importância cultural da coleção

A pesquisa de Roger Deboben Schena e Fernando Araújo mostra que a coleção vai além do valor documental. Ela revela:

  • práticas musicais informais
  • repertórios pouco conhecidos
  • redes de músicos autodidatas
  • processos de transmissão oral
  • registros históricos do violão no Brasil

Esse conjunto de elementos ajuda a compreender como o violão se desenvolveu fora dos ambientes acadêmicos. Também evidencia o papel da colaboração entre músicos na construção do repertório.

Ao preservar esses materiais, a coleção contribui para a valorização da diversidade cultural brasileira. Ela mostra que a história da música também é feita por artistas anônimos e autodidatas.


[Imagem sugerida]
Link: https://images.unsplash.com/photo-1464375117522-1311dd6d0cd2
Legenda: Manuscritos musicais simbolizando preservação de repertórios
Posicionamento: Antes da conclusão


Conclusão

A Coleção José Pascoal Guimarães é um exemplo de como arquivos musicais podem preservar histórias que, de outra forma, seriam esquecidas. O trabalho de catalogação realizado por Roger Deboben Schena e Fernando Araújo evidencia a importância desse material para o estudo do violão brasileiro.

Ao reunir manuscritos, gravações e partituras, o acervo revela práticas culturais, compositores autodidatas e formas de aprendizado informal. Mais do que um conjunto de documentos, a coleção funciona como um verdadeiro lugar de memória.

Preservar esse tipo de material é essencial para compreender a diversidade da música brasileira e garantir que esses saberes continuem circulando entre músicos e pesquisadores.


Fonte da pesquisa

Pesquisadores:

  • Roger Deboben Schena
  • Fernando Araújo

Nível da pesquisa: Comunicação acadêmica (evento científico)

Instituição: Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG

Título do artigo:
“Coleção José Pascoal Guimarães: Resgate de obras e compositores”

Link para o texto completo:
https://anppom.org.br/anais/anaiscongresso_anppom_2023/papers/1858/public/1858-7457-1-PB.pdf

Saiba mais e veja a comunicação do Roger no link abaixo

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Coleção José Pascoal Guimarães: como o acervo preserva compositores autodidatas, práticas musicais e a memória do violão brasileiro no século XX.